
O céu ensolarado não refletia o frio que fazia em Moscou. Pelos meses que estava ali, o clima gelado já era um companheiro cotidiano, peculiar. Naquele dia, nada especial. Só gelado, como sempre.
As torres da catedral de São Basílio se erguiam majestosas e coloridas, embora isso representasse tudo que aquele império, construído em anos de lutas e sonhos, não era no momento. Oscar assoviou a música da Revolução entre os lábios roxos, ali, sentado na frente da luxuosa catedral. Já não acreditava integralmente naquilo tudo: tanto tempo dedicado àquela causa – tudo para ele parecia tão certo, tão óbvio. Desde os tempos da luta contra a ditadura militar no Brasil, até a nomeação como membro oficial do partido em Moscou, Oscar fora simples, terno, decidido. Intransigente, em algumas ocasiões, é verdade. Mas isso fazia parte da doutrina, afinal de contas. Ele sabia, agora, que a queda do império era uma questão de tempo, e que ele enfim, voltaria para casa.
Inúmeros pensamentos povoam sua cabeça, incontáveis preocupações acerca do partido, dos camaradas desiludidos. Aquilo tudo o deixava irritado – “aqueles merdas, como sempre hesitantes!”. Mas nisso, ele pensava nos dias de semana, também frios, de Moscou. Naquele domingo, o passeio de sempre foi diferente. Afinal, Oscar também era… humano.
Não sabia exatamente por que, mas o tempo daquele dia o fez viajar de volta a Curitiba. A modesta casa nas proximidades do Parque Barigui era a lembrança de infância mais clara – além da família, é claro – embora esta não representasse uma marca muito positiva na vida dele. As sofridas (e saudosas) manhãs frias do inverno curitibano, que branqueavam o Barigui, apertaram o coração do homem firme. Apertaram porque ele se lembrou de Graça. Aquela mulher, a mais fina e doce mulher que já conheceu, o acordava nas manhãs frias para ir à escola. Com dor no coração, por tirar da cama quentinha o filho mais velho, ela usava de toda sua delicadeza para executar a penosa ação. Graça, sua mãe, suportou em vida muito mais que mereceu. Ela dedicou sua vida toda à família, que não soube, até aquele momento, retribuir o afeto da mulher sofrida.
Entre tantas, Oscar sentiu algo que lembrava compunção. Primeiro, por não ter dado a devida atenção à mãe. Segundo, por ter passado tanto tempo longe. O arrependimento, negado pela maioria dos homens que se dizem honrados, era claro para ele. Infeliz, mas claro. Saudades daquela voz doce e rouca, afinal.
Naquele final de tarde, diante da catedral suntuosa, depois de tantos anos, Oscar sentiu, finalmente, a lágrima acumulada descer-lhe o rosto.
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