Fantasmas de Algodão Doce

•29/10/2010 • 1 Comentário

Tão novo que estou, que penso ser ridículo já acumular fantasmas nas costas. Dizem os poetas que a adolescência é a fase inesquecível da vida. Cá estou, prestes a findá-la. Não a vejo com tristeza – nada além da amargura costumeira do escritor infundado. Creio também que nada do que fiz foi errado. Pelo contrário. Construí, ainda que poucas e superficiais, algumas coisas. Amizades. Paixões. Estas menos, afinal. Hoje, não sei de nada. Não sei o que me guia, não sei o que me espera. Sei que penso, hoje, muito fortemente, nos fantasmas que deixei para trás, nesses escassos anos. Fantasmas. Não dos maus. Ainda não tive tempo para criar fantasmas maus. Aqueles que eu penso, passo a chamar hoje de fantasmas de algodão doce. Pensei em “fantasmas de nuvens espaçadas, densas e longínquas”, mas acho que “algodão doce” resume um pouco isso. Além de adicionar a palavra doce, muito bonita. Meus poucos fantasmas, que hoje apareceram em meus sonhos, são doces. O algodão das nuvens os constrói.

O que eu não posso esquecer, é que são apenas fantasmas.

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Não nasci poeta porque quis

•15/04/2010 • 1 Comentário

Não nasci poeta porque quis
Não pedi para escrever versos tortos sobre meu amor torto.
Se pudesse escolher, nasceria burro,
Forte e alto.

Assim não precisaria sentir esse amor torto, nem escrever estes versos tortos.

Qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência.

•22/03/2010 • Deixe um comentário


Hoje, a vida dele mudou. Mas, assim, ele parece não saber ao certo. Muitas perguntas rondam sua cabeça, seus pensamentos, a conversa de alguns minutos antes. Ele, é claro, não tem todas as respostas. Não tem sequer todas as perguntas, mas está, simples e claramente, feliz.

No sonho que ele teve nas últimas cento e cinquenta e três noites, todos milimetricamente iguais, ele a levava no restaurante mais caro do bairro mais elegante, no melhor horário e no melhor dia. Eles se sentavam, o maitre chegaria com o menu, ele pediria um Coq au vin para dois, conforme combinado. O Beaujolais viria dezoito segundos depois do pedido, e sete antes de o violinista começar a tocar algo que lembrava Chopin. A conversa seguia um ritmo calmo, divertido, acima de tudo, agradável. O olhar escuro dela, que sempre a denunciava, e que sempre o hipnotizava, estava ali, mais belo que nunca. As pequenas covas na maçã arredondada esclareciam que ela estava, meramente, satisfeita. Não havia mais ninguém ali, naquele restaurante, além do maitre, de um auxiliar e do violinista, e eles. As notas suaves, as rosas vermelhas espalhadas em vasos pelos balcões, o vinho agradável iniciando seu efeito. Ao fim do prato, dois minutos e treze segundos antes do maitre requisitar a sobremesa, ele perguntou.

Cento e cinqüenta e três vezes, ele acordou com a esperança. E cento e cinqüenta e três vezes pensou que seria hoje que o sonho aconteceria.

Cento e cinqüenta e três noites depois, eles estão sentados, olhando um no olho do outro, ela com o mesmo olhar dominante, ele com a mesma cara lavada. Porém, não estavam no restaurante mais chique do bairro mais chique. Tampouco Chopin estava ali por perto. As flores nos vasos nos balcões não eram rosas vermelhas. Ele disse: “e daí?”.

E perguntou. A resposta, que não estava no sonho, veio com um sorriso.

Escrever dói.

•20/03/2010 • 2 Comentários

Já chorei assistindo um filme inocente.
Já chorei por ter perdido um amor, pra sempre.
Já chorei por dor meramente física.
E hoje, eu chorei escrevendo.

Nunca pensei que sozinho seria o diminutivo de
Só.

Adianta?

•12/03/2010 • 1 Comentário

Era uma vez uma história de amor,

que eu decidi nem começar

por não saber o final.

Rouquidão

•30/10/2009 • 2 Comentários

A praça vermelha

O céu ensolarado não refletia o frio que fazia em Moscou. Pelos meses que estava ali, o clima gelado já era um companheiro cotidiano, peculiar. Naquele dia, nada especial. Só gelado, como sempre.

As torres da catedral de São Basílio se erguiam majestosas e coloridas, embora isso representasse tudo que aquele império, construído em anos de lutas e sonhos, não era no momento. Oscar assoviou a música da Revolução entre os lábios roxos, ali, sentado na frente da luxuosa catedral. Já não acreditava integralmente naquilo tudo: tanto tempo dedicado àquela causa – tudo para ele parecia tão certo, tão óbvio. Desde os tempos da luta contra a ditadura militar no Brasil, até a nomeação como membro oficial do partido em Moscou, Oscar fora simples, terno, decidido. Intransigente, em algumas ocasiões, é verdade. Mas isso fazia parte da doutrina, afinal de contas. Ele sabia, agora, que a queda do império era uma questão de tempo, e que ele enfim, voltaria para casa.

Inúmeros pensamentos povoam sua cabeça, incontáveis preocupações acerca do partido, dos camaradas desiludidos. Aquilo tudo o deixava irritado – “aqueles merdas, como sempre hesitantes!”. Mas nisso, ele pensava nos dias de semana, também frios, de Moscou. Naquele domingo, o passeio de sempre foi diferente. Afinal, Oscar também era… humano.

Não sabia exatamente por que, mas o tempo daquele dia o fez viajar de volta a Curitiba. A modesta casa nas proximidades do Parque Barigui era a lembrança de infância mais clara – além da família, é claro – embora esta não representasse uma marca muito positiva na vida dele. As sofridas (e saudosas) manhãs frias do inverno curitibano, que branqueavam o Barigui, apertaram o coração do homem firme. Apertaram porque ele se lembrou de Graça. Aquela mulher, a mais fina e doce mulher que já conheceu, o acordava nas manhãs frias para ir à escola. Com dor no coração, por tirar da cama quentinha o filho mais velho, ela usava de toda sua delicadeza para executar a penosa ação. Graça, sua mãe, suportou em vida muito mais que mereceu. Ela dedicou sua vida toda à família, que não soube, até aquele momento, retribuir o afeto da mulher sofrida.

Entre tantas, Oscar sentiu algo que lembrava compunção. Primeiro, por não ter dado a devida atenção à mãe. Segundo, por ter passado tanto tempo longe. O arrependimento, negado pela maioria dos homens que se dizem honrados, era claro para ele. Infeliz, mas claro. Saudades daquela voz doce e rouca, afinal.

Naquele final de tarde, diante da catedral suntuosa, depois de tantos anos, Oscar sentiu, finalmente, a lágrima acumulada descer-lhe o rosto.

“Nós nunca compreendemos coisas assim, afinal”

•16/10/2009 • Deixe um comentário

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Ela o deixou, ali, sozinho. E foi simples assim, só o deixou ali, imóvel, sozinho. Ele conseguia compreender? Não, claro que não. Nós nunca compreendemos coisas assim, afinal. Ela o havia deixado. Assim, só.

Alguns minutos antes, ela era tudo pra ele. Tudo. Não importavam mais os amigos conversando próximos dali. Tampouco o álcool que corria no seu sangue, zumbindo nos ouvidos, girando nas órbitas. As outras mil pessoas, eram nada. Ela, ali, a pele morena, o cabelo preso em um coque charmosamente moldado àquele rosto, a saia média, nem vulgar, nem comprida demais – apenas média. Os lábios, macios, que se encaixavam perfeitamente nos dele. E ela estava ali, o mais perto que ele poderia imaginar.

Alguns minutos antes, ainda, eles apenas conversavam. A troca de experiências, a piada oportuna, os comentários dos passantes. Era agradável, ele lembra. Por trás, havia ainda a música. Algo relacionado com o café na manhã, ele se recorda de cantá-la mentalmente, durante a conversa. As intenções, cada vez mais agudas de ambas às partes, pouco a pouco se revelavam. Sutilmente. Lentamente. Assim que ele pensava que era bom, afinal.

Minutos antes de tudo isso, ele a conhecia numa roda de amigos. Perguntava-lhe o nome, o que fazia com a vida. A tentativa de ser incisivo demais foi bloqueada por ela. Isso apenas o animou.

Minutos antes, ele se encontrava deitado na grama, sozinho. O vinho barato começava a fazer seus efeitos devidos, e as estrelas pareciam segundo a segundo mais bonitas. A brisa suave que tocava o seu rosto trazia o recado de uma noite que tinha tudo para ser boa.

O que ele não sabia, minutos antes, é que nas estrelas já estava escrito que ela o deixaria, ainda no final daquela noite. Para ele, não restariam os amigos (já levados a outros lugares), não restaria a sensação agradável do álcool (vencida pelo tempo), não restaria outras mil e uma pessoas. Para ele, só restaria a lembrança daquela pele morena, daqueles lábios perfeitos, da saia comportada. Para ele, sobraria a certeza de não encontrá-la. Para ele,

Vazio.